Pra fazer sentido: o jornalista de moda Luigi Torre reflete sobre a temporada fashion brasileira

O que faz a diferença e dá vontade de comprar imediatamente é a roupa que te emociona. É a roupa que conta uma história ou representa uma mensagem maior na qual você acredita

  • 28 Março 2017

Vivemos sob constante bombardeio de imagens e informações. O que fica na memória, o que se destaca, é aquilo que faz sentido, tem verdade, relevância e foge da mesmice. Uma separação quase natural entre o joio e o trigo – tarefa que virou questão de sobrevivência para uma vida menos alienada.

Na moda não é diferente. A mais recente edição do São Paulo Fashion Week é um bom exemplo. Foi a primeira vez que o esquema see now, buy now (que sugere a compra imediata, logo após o desfile) foi implementado de maneira mais consistente.

Porém, mais do que quando as pessoas querem consumir, a pergunta deveria ser o que elas querem consumir.

Não que houvesse algo de errado com as roupas, pelo contrário. A tal da crise fez com que muita marca focasse no que faz de melhor e naquilo que mais representa sua identidade. A Osklen, por exemplo, recuperou os moletons oversized e as influências orientais (trabalhadas em jaquetas-kimono) que fizeram sua fama; a Ellus resgatou a alfaiataria cool e unissex, esquecida há alguns anos; a A.Niemeyer, estreante no evento, mostrou sua moda confortável à base de fibras naturais; e a Animale deu cara nova à sensualidade da consumidora da marca.

Acontece que não está fácil pra ninguém. O varejo anda em baixa faz algum tempo e sinais de melhora ainda são fracos. Crédito quase ninguém tem, dinheiro no bolso menos ainda. Em outras palavras, consumir não é exatamente uma das prioridades do momento. O que poderia mudar isso? Aquilo que você já tem no armário ou apenas uma versão atualizada daquilo? Hmmm, não.

O que faz a diferença e dá vontade de comprar imediatamente é a roupa que te emociona. É a roupa que conta uma história ou representa uma mensagem maior na qual você acredita.

Bem como a coleção pró-liberdade e diversidade sexual de Alexandre Herchcovitch e Fabio Souza, da À La Garçonne. Com toda uma iconografia punk e BDSM, o desfile foi quase um protesto antitabu, antipudor e abaixo ao conservadorismo dos dias de hoje. Em tempos opressores, a imagem algo agressiva meio tough love se mostra urgente. Mais ainda quando se leva em conta o esquema de produção de upcycling e as parcerias com outras oito marcas (as lingeries, por exemplo, foram feitas pela Hope; as camisas, pela Colombo; os tênis, pela Vans) em busca de incentivar a indústria e reduzir desperdícios.

Outros exemplos podem ser as roupas híbridas da Apartamento 03, em resposta aos dilemas extremistas e separatistas dos dias de hoje. As camisas de força lúdica e o universo circense, que fizeram do desfile da Amapô um dos comentários mais pertinentes sobre a situação da moda brasileira. A ideia da Cotton Project sobre como uma sociedade pautada pelo relaxamento (e não pelo trabalho) se vestiria. E o modo como os rappers Emicida e Evandro Fioti mergulharam em sua ancestralidade (no caso mais recente, na influência do samba na nossa cultura e estilo) para falar de um Brasil ainda esquecido (ou ignorado) pela moda.

Porque, no fim, não adianta só reclamar e perpetuar o status quo. Precisa mudar o pensamento, o olhar e o que você coloca no corpo – isso também diz muito sobre você e sobre o que você acredita.

Acompanhe o jornalista Luigi Torre no YouTube: canal Altas da Moda