Revista Giz

02 Fev 2017 - Abr 2017

#2 | Nenhuma Nudez Será Castigada

Alex Hanazaki assina projeto paisagístico que preservou espécies nativas na capital paulistana

Para muito além da ideia-fetiche de um “oásis-urbano”, Alex Hanazaki redesenha um paraíso privê nos mais de três mil metros quadrados que orbitam a casa assinada pelo Bernardes Arquitetura, a poucos metros das artérias metropolitanas mais pulsantes da capital paulista

  • 30 março 2017
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A visão de drone do fotógrafo Yuri Seródio revela a integração de camadas entre arquitetura e paisagismo

Para quem é sagitariano (como ele e eu), não é nada difícil entender a natureza espontânea do xará Alex Hanazaki e a inquietude que o levou a correr seu arado pelo mundo (o sujeito não desacelera um minuto sequer, nem mesmo quando o farol fecha). O projeto que ilustra essas páginas é o maior case da sua prolífica (pasme!) produção em 2016. “Apesar das catástrofes mercadológicas que o ano trouxe, tive sorte e não posso me queixar. Foi uma temporada ótima de realizações profissionais e retomadas certeiras”, conta. De realizações porque, segundo ele, a piriclitante situação econômica do País interferiu quase nada em seu canteirinho.

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Sob regência do maestro paisagista Alex Hanazaki, a casa projetada pelo escritório Bernardes Arquitetura manteve espécies nativas – como subipirunas, quaresmeiras, paus-ferros e jabuticabeiras

“A construção civil sentiu na pele, óbvio. Mas o setor corporativo foi muito mais afetado. Falando sobre o nicho residencial de alto padrão, no meu caso pelo menos, não houve tanto impacto.” De retomadas porque, após oito anos ausente de mostras como a Casa Cor, no exercício 2016 lacrou geral. “Participei da mostra esse ano e foi algo muito mais positivo do que imaginava. O espaço reverberou além da conta, tive uma resposta impressionante e ganhei novos clientes”, diz referindo-se à Praça Eliane, que, de longe, foi o mais fotografado, comentado e elogiado do ano.

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O projeto também ganhou pimenta oriental com o bambu mossô e as cerejeiras de Okinawa

Conversei com ele pelo telefone, às 15h de uma tarde causticante de dezembro, com sensação térmica de 40ºC, quatro dias depois de seu aniversário e três antes do Natal. Eu, internado na redação colocando os “pingos nos gizes”. Ele, no aeroporto, em sua rota de fuga para Trancoso. “Estou soterrado de trabalho, mas preciso descansar.” Descansar? “Na verdade, ano que vem repito a Casa Cor, com um ambiente quatro vezes maior. Preciso de paz e inspiração pra criar”, admite o japa supercool que vai assinar a área mais disputada da mostra: os 1.200 metros quadrados do espaço Deca (pela primeira vez confiados a um paisagista). Também lança oficialmente sua coleção de porcelanatos pela Eliane e um novo business: piscinas naturais biológicas. Se você acha pouco, chupa essa manga: em maio, acontece a inauguração do jardim permanente de Berlim, plantado dois anos atrás (Hana foi o único latino-americano convidado do festival organizado pela International Gartenausstellung, que está reunindo os melhores jardins étnicos do planeta na capital alemã. O dele é uma pequena babilônia “brasileira” arquitetada só com espécies europeias que suportam as temperaturas severas daquele inverno congelante). Mais um capítulo da sua história na gringa, já que foi eleito, em 2014, pela criteriosa ASLA (Sociedade Americana de Arquitetos Paisagistas), como o mais importante paisagista do mundo.

“Aproveitamos as árvores que protegiam a casa e entramos com folhagens tropicais, coloridas, com muita textura”

De volta ao éden dessas páginas, trata-se da consequência de um projeto que fez para uma família de empresários. Primeiro, veio a casa da mãe, com um jardinzão clássico-moderno. Agora, foi a vez da filha, que convidou-o para projetar seu pied-a-terre em mais de três mil metros quadrados no bairro dos Jardins, em São Paulo, a dez minutinhos da Avenida Paulista e a menos de cinco da Rebouças, duas das artérias mais entupidas da megalópole. A arquitetura peso-pesado ficou a cargo do prestigiadíssimo Bernardes Arquitetura. “Já fiz outros trabalhos com eles mas, pela primeira vez, participamos mais intensamente, desde o escopo, na planta, antes mesmo da obra começar, o que proporcionou uma sinergia maior.”

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Outro registro da área externa com vista para a piscina

O primeiro desafio foi desenclausurar os jardins, já que havia muros muito altos (necessários tanto para minimizar o aspecto de casa urbana quanto para fortalecer a segurança). O paisagismo esconde esses muros, proporcionando um efeito visual paradisíaco. “Também tiramos partido da projeção do subsolo, com mais profundidade para as plantas se enraizarem. A pérgola, por exemplo, foi projetada como uma grande varanda e o sonho dos clientes era ver aquilo coberto por vegetação, com cara de caramanchão. Um grande desafio técnico, pois naquele caso especificamente se tratava de uma área imensa com pouca terra. Tivemos um único ponto para plantar a trepadeira sete léguas, uma das mais velozes em relação ao desenvolvimento, que já cresceu mais de trinta metros e começa a cobrir tudo como eles sonharam.” Ao redor da casa, um percurso para caminhadas com cara de “passeio no bosque” foi providenciado. Ele também conduz a áreas gramadas de descanso e a uma quadra de futebol, para deleite da gurizada.

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A tropicália brasileiríssima de diversas helicônias, avencas, rendas portuguesas, bananeiras, costelas-de-adão e alocásias

Como reza a cartilha do escritório Bernardes, a casa é moderníssima, mas tem um certo shape brasileiro, tropical. O paisagismo acompanha essa toada. Alex preservou as espécies nativas que já se apresentavam frondosas por lá, tirando vantagem daquele aspecto mais maduro das áreas verdes, que demanda paciência de Jó. “Jamais derrubaríamos as subipirunas, quaresmeiras, paus-ferro, jabuticabeiras, nadinha. Aproveitamos todas essas árvores que protegiam a casa e entramos com folhagens tropicais, coloridas, com muita textura. Helicônias de vários tipos, avencas, rendas portuguesas, bananeiras, costelas-de-adão, alocásias e, é claro, o meu toquezinho oriental de sempre, com muito bambu mossô e cerejeiras de Okinawa”, conta.
Um mini pomar de cítricos, com pitangueiras, limoeiros, laranjeiras, amoreiras e outras frutíferas que “o cliente vai ver crescer”, encerra a tropicália de Hanazaki.
Hora de embarcar, contemplar o mar, as palmeiras e a topografia sinuosa do sul da Bahia. Hanazaki, um dos maiores gênios do nosso paisagismo, certamente trará de lá novas cartas – e novas folhas – nas mangas.

hanazaki.com.br

bernardesarq.com.br