Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

Estava escrito: Luiz Carlos Orsini cria território botânico quase sagrado para haras da família Diniz

Delineado pelo mestre paisagista entre ondulações poéticas e dezenas de espécies de palmeiras que sombreiam linhas babilônicas, haras no interior paulista é um pequeno pedaço de Éden para a família Diniz chamar de seu

  • Por:Lucilia Diniz
  • Fotos:Tuca Reinés
  • 10 outubro 2017

giz-4-luiz-carlos-orsini-maktub-5

Algumas pessoas são “artistas por natureza”, mas com o Luiz Carlos Orsini esta expressão ganha significado literal. Para ele, a natureza é mestra e matéria-prima! A terra que ensina e educa é também a argila que molda suas criações.

Convidei o Orsini para assumir o paisagismo deste haras… E lá veio ele com aquele olhar profundo, que hoje reconheço como a janela da alma de todo poeta. Desde o início percebi que faríamos algo esplendoroso! Afinal, a questão que buscávamos responder nunca foi “como obter um bom paisagismo?”, mas sim “o que faz uma propriedade rural ser considerada espetacular?”

Nos perguntávamos “Precisa ter lago?”. Sim, precisa! “Pedras rochosas, quedas d’água?” Fundamental! Então decidimos primeiro construir nossa terra “nativa” ideal, para só depois cuidarmos da flora.

giz-4-luiz-carlos-orsini-maktub-4Ao longo deste processo, sua criatividade floresceu onde eu menos esperava. Galhos e hastes emolduravam cada horizonte que o seu talento propunha ao meu olhar. Cenários que ganhavam diferentes texturas e cores, sempre em inúmeras combinações de folhas e flores. Qualquer que fosse meu campo de visão, era tocada pela surpresa de suas criações, e ainda pela emoção de me sentir em um território botânico sagrado.

giz-4-luiz-carlos-orsini-maktub-2Ao longo desta experiência, desenvolvemos uma amizade na qual não se apresentavam amigos, mas plantas das mais variadas espécies. Cada “amigo novo” tinha suas nuances de personalidade, com seus caprichos e qualidades. E quando tudo floriu diante dos meus olhos na primavera, curiosamente no dia do casamento da minha filha, o que era pra ser uma bela estância acabou virando o meu Éden! Uma obra-prima viva a céu aberto, de extrema exuberância, que absorve cada raio de sol que se derrama sobre ela.

giz-4-luiz-carlos-orsini-maktub-7

Obrigada, Luiz Carlos Orsini, por cultivar tanta beleza em minha terra. E pelo aprendizado que levarei por toda vida!
Segundo Orsini, este foi o último trabalho que ficou pronto para seu livro (realizado entre maio de 2016 e março de 2017). Prazeroso, poético, plástico, livre, autêntico, sinuoso, moderno, colorido, harmônico, charmoso, convidativo: são alguns dos adjetivos que encontrei nesse momento. A cara do proprietário. E a cara do paisagista. MakTub: assim estava escrito.

giz-4-luiz-carlos-orsini-maktub-9

Gigante pela própria natureza

Por Allex Colontonio

Entendedores entenderão que não é nada exótico ler Lucilia Diniz comparar Luiz Carlos Orsini a um poeta, ou fazer uma analogia entre a terra que cultiva e o barro-origem da criação divina que a gente encontra na liturgia. “Nunca quis brincar de ser Deus, mas, para mim, mais do que um ofício, transformar landscapes é uma arte que persigo intensamente. Mais prático do que teórico, mais emotivo do que racional, sou pura paixão ao lidar com a terra em suas mais variadas escalas e dimensões arquitetônicas. Assim é o meu trabalho. Vivo de criar combinações botânicas incomuns e só consigo respirar aliviado quando invento (e reinvento) a paisagem”, conta em seu novo prefácio. Com a humildade cara aos grandes mestres – aqueles que estão até mesmo acima dos gênios, por sua vez, mais intempestivos – Orsini coreografa com paciência, mãos na massa, carinho paterno e a simpatia de um velho amigo alguns dos recortes mais belos já registrados no paisagismo do Brasil – tanto que seu novo livro, às vésperas de ser lançado menos de uma década depois do primeiro (“Luiz Carlos Orsini: 30 Anos de Paisagismo”, 2008), já tem uma terceira continuação anunciada. “Por prazer e por opção, sou assumidamente viciado naquilo que faço. Não vivo sem a rotina, sem os meus clientes e sem as pessoas com quem compartilho o campo – dos jardineiros, que sempre me transmitem ensinamentos valiosos, até a própria natureza, onde encontro equilíbrio e também minha principal fonte de inspiração.” No projeto portentoso do haras de Lucilia, cuja sede tem arquitetura grifada de Gui Mattos, uma infinidade de espécies de palmeiras (imperiais, pandanus, canárias entre outras mais onde cantam sabiás e toda sorte de aves) salta aos olhos em encontros sombreados com pau-brasil, sibipirunas, jabuticabeiras e outras árvores frutíferas. “Lucilia queria avistar o lago da casa e uma terraplanagem de mais de sete metros foi providenciada”, conta. Com a terra remanescente, Orsini refez os contornos ondulados do paraíso privê da família Diniz, que também ganhou um lago que desemboca em cascata na piscina, para desaguar em outro lago. O resultado são 100 hectares de sombra, água fresca e beleza desconcertante. “Foram cerca de 10 meses de obra. Nos três últimos, mais de 60 homens foram escalados para garantir a entrega a tempo da festa da filha dela”, conta, referindo-se a um dos casórios mais bombados do jet-set no ano passado. “Eu mesmo ia à obra todo santo dia”, finaliza o mestre que, independentemente do tamanho do projeto ou da envergadura do cliente, prefere os próprios dedos a qualquer arado.

 

*O quiosque Mak, também no espaço – e ponto de encontro certo para relaxar regado a uma boa leitura – explora a vista tipo inacreditável do entorno do haras. O interessante pavilhão saiu das pranchetas do escritório Studio AG Arquitetura, tocado pelas jovens arquitetas Amanda Castro e Giovana Giosa. A estrutura retangular contempla painéis de correr, de madeira e telas solares coloridas, que, além de causarem um efeito visual contrastante pelas tonalidades, funcionam como brises e protegem contra o sol e o vento, entre outras intempéries.

 

Luiz Carlos Orsini
lorsini.com.br

Conteúdos Relacionados