Minha terra sem palmeiras

Em Belo Horizonte, Luiz Carlos Orsini assina o espetacular projeto paisagístico de uma casa de campo em que árvores e maciços herbáceos brotam entre dunas de grama amendoim

  • 31 outubro 2016
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Árvores remanescentes foram plantadas na parte baixa do terreno e circundam a capela de concreto e vidro edificada junto à morada

É um domingo qualquer de inverno, 18h30, crepúsculo. Luiz Carlos Orsini, um dos paisagistas mais prestigiados desses brasis, trabalha muito e gosta de fartura – sombra e água fresca, só para hidratar os lotes dos oásis que rabisca (à mão livre, inclusive, bem à moda antiga), planta e cultiva, como poucos em sua área. “Só descanso mesmo quando viajo”, diz. Prestes a lançar seu terceiro livro (outra coletânea dos projetos que o incensaram), o mineiro está habituado a desenhar jardins de grandes proporções, incluindo aí boa parte da espetacular (e polêmica) babilônia que corre frondosa e verdejante pelo instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais – e que desencadeou uma célebre disputa judicial por direitos autorais que corre há mais de 10 anos na Justiça. “Ganhei em primeira e segunda instâncias, mas tudo por aqui é muito lento. Não quero dinheiro, apenas o crédito pelos 260 mil m2 que projetei lá, durante quatro anos de trabalho intenso e que foram creditados ao Burle Marx”, pondera. “A briga é com o Instituto, não com o Bernardo Paz (mentor e dono do maior centro cultural a céu aberto do mundo) e nem com o Burle Marx, a quem conheci pessoalmente e que foi uma grande inspiração para mim”, diz o jardinero proyectista formado em Madri, na Espanha, na pós-psicodelia dos anos 1980, que já soma mais de 30 primaveras de arado e que agora trabalha ao lado do filho, o arquiteto André Orsini, 33 anos.

Natural de Belo Horizonte, Luiz especializou-se em transplantes de plantas adultas e em fazer a gente ficar de queixo caído com suas veredas ornamentais que parecem aquelas pintadas por Monet. Mas nada de influências europeias. “Os ingleses revolucionaram os jardins, com suas topiarias e afins, mas eu sou mais do mato mesmo, da mão na terra, de reinventar o landscape”, diz ele evocando Marx, que pregava ser o paisagismo “a natureza organizada pelo homem”.

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Vista aérea do programa da casa onde dá para visualizar o jardim composto de maciços arbustos e árvores

Esse projeto, casa de campo em Nova Lima (região metropolitana de Belo Horizonte), nas Gerais, delimitada em terreno de 20 mil m², com arquitetura de Patrícia Hermanny, começou com um pedido dos contratantes que apavorou Orsini: “Não queremos palmeiras”. Assim, uma de nossas espécies mais icônicas – e prediletas pelo paisagista – cedeu lugar a uma grande quantidade de árvores e maciços herbáceos. “Foi a primeira vez que tive que deixá-las de fora”, conta. Mesmo nessa terra sem palmeiras, também canta o sabiá – para parafrasear a Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, aquela que dizia que as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como as de lá.

“A área externa se divide em zonas: o jardim de entrada e fachada principal da residência; o bosque paralelo à entrada; o jardim da entrada secundária juntamente com a capela e a quadra de tênis; o jardim da piscina e área gourmet; e o jardim posterior, voltado para os quartos – cujo panorama lembra o voo do pássaro de outra canção, Paisagem da Janela, clássico dos conterrâneos Lô Borges e Fernando Brant, do Clube da Esquina, outra poesia pop que transbordou de Minas num vagão do Trem Azul.

“Da produção de substratos à floricultura, passei por todas as áreas possíveis, mas o que eu gosto mesmo é de fazer trabalhos como este”

“Esse é um jardim conceitual, tendo seu clímax na fachada principal da casa onde conjuntos de embaúbas foram inseridos sobre grandes ondulações de grama amendoim. O desenho da sombra dessas árvores na fachada dá um charme maior ainda ao conjunto. Paralelamente, um bosque de árvores remanescentes e introduzidas se desenha na parte baixa do terreno até chegar à capela, que foi construída juntamente com a casa, feita em concreto e vidro, que possui um altar e poucos bancos”, explica sobre a geometria serpenteada por grandes áreas livres, mescladas com maciços de arbustos e árvores que harmonizam com a residência.

“Trabalhei com muitas ondulações e grandes movimentos de terra, redesenhando a topografia original”. Além de quase uma centena de embaúbas, ipês, paineiras e paus-ferro também sacodem suas copas ao balanço do vento. Um escândalo de lindo. Simples assim.

Orsini já fez incorporações, empreendimentos imobiliários e afins, mas gosta mesmo é de projetar jardins privados. “Da produção de substratos à floricultura, passei por todas as áreas possíveis, mas o que eu gosto mesmo é de fazer trabalhos como este”. Talvez, por isso, não sentiu um dedinho de poda em seu negócio. “Meus jardins geralmente são trabalhos de um ano para mais. Meu cliente não parece afetado por nenhuma crise”. Cada um colhe o que planta.