Pet cãomité: Diogo Oliveira aciona seus pets para mise-en-scène cheio de personalidade em morada paulistana

Ex-jogador de futebol, o designer de interiores circula escoltado por uma matilha mais carismática do que a Lassie, arma os petit comités mais animados em seu apê-fetiche e assina projetos divertidos que rompem protocolos acadêmicos. Nesse décor ambientado por ele num casarão paulistano desenhado por Ruy Ohtake nos anos 1970, o paisagismo babilônico de Luiz Carlos Orsini é quase um playground para seus hot dogs – e para um exercício estético tão jovem, vibrante, rebelde e explosivo quanto a personalidade do Joaquim, o terrível chefe do bando canino

  • 25 setembro 2017

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Os comedidos que me perdoem, mas não dá para economizar nas adjetivações deste texto. Pense num sujeito simples, boa-praça, gentil, educado, divertido, agradável, daqueles que todo mundo quer ter por perto. Agora injete isso tudo em uma fôrma de 1,88m, shape atlético esculpido em mais de uma década de clubes profissionais, olhos verdes de galã de filme vintage da Sessão da Tarde, sorriso de 257 dentes (bem brancos!) em cada arcada. E a cereja do bolo: uma antena esperta para o melhor do design contemporâneo, outra para a crista da onda das artes plásticas e intuição zás-trás para pinçar as joias mais raras da mobília moderna brasuca.

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Se você achou pouco, vai o golpe de misericórdia: o bom elemento, humilde da derme ao tutano, trafega para baixo e para cima escoltado por uma tropa de, literalmente, parar o trânsito – e que se transformou em fenômeno nas redes sociais: os buldogues ingleses Francisco, Sebastião, Bento e Joaquim (este último uma peste incontrolável – e irresistível), que você confere nessas páginas em looks do tipo “comercial da Parmalat”, e “Perdido em Marte”, capazes de pegar Lassie, Rin-tin-tin, Bethoven, Bandit e qualquer outro cão-celebridade de cauda curta. “Outro dia um motorista viu a gente na calçada, parou o busão e gritou lá de dentro: ‘Ei, posso tirar uma foto com o Joaquim?’. E lá se foi mais uma selfie, entre uma sinfonia de buzinas”, conta o “pai” dos meninos.

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Esse cara é o Diogo Oliveira, 32 verões nas costas, baiano de Feira de Santana, filho de professora e comerciante, que veio tentar a vida na cidade grande aos 13 e, por muito pouco, não foi devorado pela megalópole, como acontece com a maioria esmagadora dos migrantes. Jogador de futebol na juventude, passou por clubes importantes do ABC, como o São Caetano em sua melhor fase, até bater na trave.

“Estava frustrado com o esporte e não queria seguir o roteiro da minha família, que se enveredou pelo pólo industrial de São Bernardo do Campo. Resolvi abraçar a faculdade de Economia na PUC, para aproveitar a bolsa de atleta”.

Canudo na mão e sem nenhuma identidade com a nova carreira, pouco mais tarde assumiria de vez a paixão que sempre cultivou pelo design de interiores. “Em casa, no começo, torciam o nariz, porque achavam que era profissão de gente abastada, que eu não teria o traquejo social necessário”, lembra. “Minha família é uma deliciosa confusão de nordestinos com diversos credos sintetizados no mesmo espaço, a casa da minha avó, Dona Lina, cozinheira de mão-cheia que sustentava a família vendendo a melhor cocada da região”, conta com o orgulho de quem faz sucesso sem mascarar as raízes – coisa rara no vaidoso planeta décor, habitado por condes, marqueses, fadas, gnomos e boias-frias forjando biografia de barões do café.

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Quando foi morar sozinho pela primeira vez, com a grana curta, por puro instinto se jogou nos brechós e restaurava peças com mix calculado de geometrias e estampas. Uma vizinha perguntou pelo decorador que havia assinado aquele cenário e acabou contratando-o para fazer o apê dela.

“No final das contas, me formei em Design de Interiores, mas me considero mesmo autodidata. Sempre li muito e, no pacote, entravam livros de arte, arquitetura e revistas de decoração. Fui compondo meu estilo com feeling e observando os muitos profissionais que admiro, sem estabelecer nenhuma regra a não ser fugir da monotonia e não ter medo de errar. Com a ajuda de um grupo de investidores, passei a comprar e vender imóveis – um negócio muito lucrativo na era pré-crise – e, uma vez empreiteiro, rabiscava meus próprios projetos, até que surgiram mais e mais clientes”.

Taí a versão resumida do gato borralheiro sem vocação alguma para retirante, que ralou feito coco na mão da baiana antes de virar o rei da cocada preta. Grande teaser de sua jornada arquitetônica, seu poderoso e controverso apartamento paulistano (muitos amam, alguns torcem o nariz), num dos edifícios mais cobiçados da Avenida Paulista, já foi capa da querida revista Casa & Jardim, reportagem de TV e é um dos mais comentados – e bem frequentados – da vez.

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Quando o elevador aterrissa no 12º andar, despeja de tudo ali: artistas plásticos, jornalistas, arquitetos, advogados, políticos, empresários, atores, cantores, modelos, cachorros e cachorras. O dono do pedaço, que se qualifica como “um profissional irreverente”, é festeiro incansável e, no boca-a-boca, vai cativando uma cartela sui generis de clientes que começa com a diva sertaneja Roberta Miranda (uma das maiores arrecadadoras de direitos autorais do Ecad, a quem interessar possa) e termina com o Chico, discreto dono desta casa, projeto espetacular de Ruy Ohtake em sua fase mais brutalista e menos circular, lá nos anos 1970.

Arquitetura cheia de garça
Em região arborizada, próximo a um grande parque que funciona como escala nos voos de garças e quero-queros (sim: existe amor e garça em SP!), o casarão de concreto aparente é um retângulo austero na fachada, com um toque de mestre – e outro de poesia – na lateral: a marquise escultural que serpenteia a face leste do bloco. Fosse eu crítico de arquitetura, diria que o gesto projetual é um híbrido dialético entre a rigidez de Paulo Mendes da Rocha e a sinuosidade de Oscar Niemeyer (que bom que não sou, assim posso escrever meus blá-blá-blás de vez em quando sem ser apedrejado pelos regurgitadores de regras).

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O doutor que vive aqui com sua família (capitaneada pela irmã Rosana, anfitriã dessas que a gente não encontra todo dia e, quando encontra, morre de amores à primeira vista), tem gosto apuradíssimo para o design e foi colecionando, ao longo da vida, exemplares fundamentais da mobília moderna brasileira, de Zanine Caldas e Joaquim Tenreiro a Jorge Zalszupin, sem falar nas esculturas gigantes de bronze de Sonia Ebling, nas obras de Helio Oiticica e Adriana Duque que saltam aos olhos quando a luz rendada do sol invade o living através dos cobogós neoconcretos que Ohtake postou lá em cima. Oliveira, amigo muito próximo dessa galera sangue bom que fez a nossa equipe – e a cachorrada – se sentirem em casa, tá chegando agora para “botar ordem no coreto” e prestar uma consultoria de arte (seu apartamento, aquele onde rolam as festanças de arromba que atravessam a madrugada, é praticamente uma galeria privada).

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De volta ao recheio da casca assinada por Ruy, a mistura fina do Diogo combina esses clássicos nacionais com mobília italiana peso pesado (lá estão os melhores garimpos feitos na Casual, na Atrium e na Micasa), objetos de arte e de antiquariato cooptados por ele e arranjos de cunho próprio – “adoro madrugar no Ceagesp para comprar flores e, quanto mais exuberantes elas forem, melhor”.

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E por mais que eu, muito mais minimalista do que acumulador, dissesse “menos, Diogo, menos”, cerca de 10 arranjos foram montados para esse projeto sem nenhuma economia de roxos, lilases, rosas, azuis – Oliveira não tem problemas em assumir seu coté kitsch. O fato é que ele sabe o que está fazendo – e, no final das contas, agrada geral e acaba absolvido por um excesso aqui e outro ali. “Decorar um projeto do Ruy Ohtake é interagir com um dos meus grandes ídolos.  E ter o privilégio de trabalhar com o Luiz Carlos Orsini, então, outro profissional que sempre admirei, é um presente.” A gente entende. E observa. Quando o portentoso invólucro concretista ohtakeano se encontra com os jardins babilônicos do sensacional Orsini é que a alquimia, de fato, acontece. Sem extravagâncias, com um jogo de matizes de verde que começa com a robustez do musgo e termina na sutileza do hortelã, o paisagismo é uma lição de estilo e outra de sabedoria.

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Diogo, sujeito de verdade – e sem retoques – reconhece o valor de trabalhar com os grandes. E não se abala com a trabalheira que dá cuidar do seu “pet cãomité”, reunido para deixar essas páginas mais divertidas para você. Joaquim, que já derrubou uma noiva em porta de igreja, não deixaria por menos em nosso ensaio: roeu obras de arte, derrubou o tripé do fotógrafo 60 vezes, fez cocô na legendária poltrona orbital do Ricardo Fasanello, se jogou na piscina para desespero coletivo (anatomicamente, buldogues afundam – e se afogam), babou um litro no tapete importado e fez este jornalista quase careca que vos escreve se descabelar ainda mais do que de costume. Mesmo assim, saí de lá com a minha selfie – e uma vontade imensa de sequestrá- lo por uns dias. Salute, mondo cane!

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Babilônia sem suspenses
“A inspiração surgiu da visita do cliente à Mostra Black, em 2012. Ele queria exatamente o mesmo jardim para a sua residência e o terreno ao lado, do lote vizinho, já havia sido anexado à sua casa. Fiz pequenas adequações estruturais e o mais bacana foi o entusiasmo do Francisco e seu entendimento de que o conceito do jardim não teria pontos de cor. Tenho um carinho por esse trabalho por ele representar um divisor de águas em termos de paisagismo: um jardim tropical totalmente verde, singular. Na época ainda não era muito comum o uso de espécies como a Aloe, originária da África do Sul, Dracaena draco, comumente encontrada nas Ilhas Canárias, e Zamia, oriunda da América Central. A composição dessas espécies deu um efeito espetacular de texturas variadas e volumetria redonda, harmônica e equilibrada. Acredito que essa área toda verde, com seu traçado complementado por pedriscos e espelho d’água, é um casamento perfeito com a arquitetura do Ohtake: ambos se complementam sem roubar o espaço um do outro.” Luiz Carlos Orsini – Paisagista

Diogo Oliveira
instagram.com/studiodiogooliveira

Luiz Carlos Orsini
lcorsini.com.br

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