Revista Giz

02 Fev 2017 - Abr 2017

#2 | Nenhuma Nudez Será Castigada

Escritório Lazzarini Pickering Architects reverencia a natureza em projeto inglês

Debruçada sobre zona rural de reconhecido valor paisagístico entre Londres e Oxfordshire, no Reino Unido, casa projetada pela dupla ítalo-australiana Claudio Lazzarini e Carl Pickering – duas caixas retangulares em vidro e aço interconectadas por um cubo central – adere à natureza em ritmo de contrapartida afinada

  • 3 maio 2017

Sou apresentado à dupla Claudio Lazzarini e Carl Pickering no pied-a-terre da família Acierno, pelo herdeiro e anfitrião Carlo Calabro (empresário-visionário que transbordou do mercado financeiro para o métier design), em Milão – durante um jantar italianíssimo, temperado com conversas deliciosas, quitutes irresistíveis e frequentado por comensais idem.

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O pavilhão de entrada ganhou totalmente erguido sobre aço preto e vidro cristalino, escoltado pela vegetação podada em topiaria para contraste e efeitos máximos

“Somos especializados em não ter uma especialidade”, resumem Lazzarini e Pickering entre uma ou duas (talvez três) taças de vinho. “Quando éramos professores na Universidade de Roma, os alunos perguntavam quais eram nossas referências culturais. Podíamos citar Derrida, Deleuze, Rike, Musil, Valèry. Mas, em vez disso, a resposta sempre era: Bond, James Bond”, relembram, de sorriso farto em face, enquanto celebram a própria sagacidade que sinaliza uma antena em perfeita sintonia com o mundo de hoje.

 

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Registro ângulo aberto que revela as caixas declaradamente motivadas pelos ensinamentos arquiteturais de Mies Van de Rohe

Pausa para algumas porções do indescritível L’arancinone – versão do arancino, bolinho de arroz típico de Palermo que leva molho bolonhesa, açafrão, ervilhas e salame (o original é individual e frito na imersão). A receita da dona do pedaço, Patrizia Acierno, vai ao forno e vem à mesa em tamanho família – família italiana, daquelas com muitos primos, que fique claro. De barriga forrada e cara corada, me pego em uma conversa com o carismático Carl Pickering, a metade australiana do duo que tem um dos pés fincados na Itália. Falamos um pouco sobre coisas da vida, outro tanto sobre Brasil (nossas praias são objeto de fascínio e adoração de Mr. Pickering) e muito sobre arquitetura. Ele abre um volume literário vultoso, Lazzarini Pickering Architects, compêndio sobre sua própria obra, e segue com as explanações: “Olhe essa casa, por exemplo. Ela oferece um ponto de observação para que os moradores vejam o dramático teatro meteorológico enquanto tomam um chá em frente à lareira. Na verdade, quanto pior o clima, mais maravilhosa a experiência que a casa proporciona. As fachadas totalmente transparentes fazem com que a gente se sinta do lado de fora, porém protegidos pela barreira de vidro”. Decidimos publicar na hora – e aqui estamos.

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Zoom do pátio interno do projeto que explora sua arquitetura marcante

Lazzarini, sentado na outra extremidade do sofá que desenha o lounge do estar Acierno em “U”, entretém outro convidado enquanto observa, à distância, com olhar de aprovação. Pickering segue, então, com sua história. A casa em questão é o projeto The Bluff, erguido em zona rural de proteção ambiental e de reconhecido valor paisagístico, entre Londres e Oxfordshire, no Reino Unido. Esse caráter in-between faz todo sentido: no meio do caminho entre a industrial e cosmopolita Londres e a bucólica e fabulesca Oxford, um projeto que remixa o melhor desses dois mundos – criando uma plataforma onde os fundamentos construtivos de Mies Van der Rohe (1886-1969) atingem a estratosfera. Duas caixas retangulares em vidro e aço são interconectadas por um cubo central, dando origem a um complexo arquitetural que, a partir de cantilevers, simula levitar com suavidade sobre as verdejantes pradarias inglesas.

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O deque da piscina com borda infinita tem vista para as pradarias inglesas. As Spun Chairs, de Thomas Heatherwick para Magis roubam a cena da área externa

“A força dessa localização era tamanha que decidimos evitar distrações. Queríamos criar uma paisagem, não uma casa. A integração entre os dois é fluida e indivisível”, diz Pickering, que vem seguido por Lazzarini (que, a essa altura, noto estar sentado do nosso lado do sofá): “Nesse projeto, a vista era tão ampla que sentimos a necessidade de enquadrá-la. Também queríamos que as pessoas descobrissem a casa aos poucos, como acontece nos jardins ingleses. Primeiro, revelamos um pouco da construção quando o olhar cruza os portões. Daí entram as cercas vivas que ladeiam os bosques nativos, até que vem a topiaria em forma de arcos e a entrada do pavilhão principal. Quando o olhar ultrapassa esse trecho, a vista grandiosa passa a ser enquadrada horizontalmente pela arquitetura. Para arrematar a experiência, é possível até caminhar sobre os telhados gramados, quase como se você fosse um avião planando sobre o vale”, descreve a experiência em riqueza de detalhes – Deus, dizia Van der Rohe, está neles.

“A força dessa localização era tamanha que decidimos evitar distrações. Queríamos criar uma paisagem, não uma casa. A integração entre os dois é fluida e indivisível”

As fachadas são compostas por portas, janelas e painéis que se abrem e se fecham, criando efeitos tridimensionais e potencializando a perspectiva do olhar por meio da superfície contínua em vidro cristalino. As portas são ajustadas caso a caso e conforme as necessidades de cada espaço – outra abordagem recorrente nos projetos de Lazzarini e Pickering é a transformação. Para estar de acordo com as leis ambientais locais, a dupla também buscou soluções alternativas e de vanguarda: telhados gramados, aquecedor que funciona à base de biomassa e sistemas de ventilação natural – ar-condicionado nem pensar.

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Outro recorte da arquitetura marcante do projeto. Ao lado, a estrutura firme, elegante e discreta revela portas assimétricas e amplas janelas de vidro cristalino, que solucionam o sistema de ventilação natural

As paredes internas são pintadas de preto para reduzir os reflexos quando a noite cai, criando assim o ambiente ideal para as antiguidades e obras de arte dos proprietários – o diálogo entre peças clássicas e modernas tanto do lado de dentro quando do lado de fora dessa casa contribui para a atmosfera única. “O genius loci [espírito do lugar] em qualquer destino, seja natural ou urbano, é um elemento essencial do nosso trabalho. Procuramos ser o mais invisível que podemos, deixando que a construção – ou a localização – fale por si”, completam. A que respondo, sem pensar muito: “Parece que essa casa sempre esteve ali”. Ambos finalizam, em uníssono – e com aquele sorriso de quem acabou de ganhar o dia: “Então você entendeu nosso trabalho”.

Lazzarini Pickering Archtects 
lazzarinipickering.com