Que o concreto vire parque: a luta de Felipe Morozini e da Associação do Parque Minhocão

Felipe Morozini encabeça movimento para transformar o Elevado Presidente João Goulart oficialmente no Parque Minhocão, e a ajudar a inverter o establishment paulistano de uma cidade voltada para carros

  • Texto:Odhara Caroline
  • 5 dezembro 2016
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Felipe Morozini é presidente da Associação Amigos do Parque Minhocão

“Esta obra, com quase três quilômetros e meio de extensão em via elevada toda em concreto protendido, pré-armado e um custo de 37 milhões de cruzeiros novos, aproximadamente, inaugura uma nova solução de sistema viário para a cidade de são paulo que já tem sido aplicada em outras capitais do mundo: o tráfego rápido, em vias elevadas, sem nenhum cruzamento”. Com o sotaque característico, Paulo Maluf, em 1969, à época prefeito de São Paulo, anunciava a construção do que hoje é considerado uma cicatriz no tecido urbanístico da cidade: o Minhocão (assista ao vídeo aqui).

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Intervenção de Felipe no Elevado

Imagine abrir a sua janela e se deparar com um monstro de 50 mil metros cúbicos de concreto, que cospe 85 decibéis de ruídos por dia. Esse é o cotidiano do fotógrafo Felipe Morozini, que mora há 16 anos na frente do Minhocão, em um apartamento que, anteriormente, pertencera à sua avó. Hoje, Felipe é o presidente da Associação Amigos do Parque Minhocão, que se esforça para que o espaço seja transformado definitivamente em um parque, aos moldes do High Line, em Nova York.

Esta não é a primeira vez que a ideia de um espaço público em vez de uma via automobilística é proposta como solução para todos os problemas ambientais e urbanísticos causados pelo Minhocão — em 1986, o arquiteto Pitanga de Amparo levou este plano para o prefeito Jânio Quadros, que se interessou pela ideia.

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Intervenção de Felipe no Minhocão

O elevado conecta o centro e a zona oeste, indo pra Praça Roosevelt até a Praça Padre Péricles, passando pelo Largo do Arouche, pela Praça Marechal Deodoro e pela Avenida São João. Desde a aprovação do novo Plano Diretor de São Paulo pela prefeitura de Fernando Haddad, já é fato que os carros estarão fora do Minhocão. “Já existem cinco maneiras diferentes de chegar na Zona Oeste que são paralelas ao elevado”, minimiza Felipe em conversa por telefone com GIZ. “Não são tantos carros assim [que passam por lá]. É muito carro para quem mora nos arredores, mas não para a cidade. A região não usa mais aquela via, não faz sentido um bairro inteiro arcar com isso”.

Hoje, o Elevado Presidente João Goulart fica fechado aos sábados, a partir das 15h, e só reabre na segunda pela manhã, ficando bloqueado também das 21h30 às 6h30 no meio da semana. Bom, “fechado” e “bloqueado” apenas para o trânsito — assim que os carros se vão, os paulistanos, sempre sedentos por espaços amigáveis aos seres humanos (algo que não pode ser dito sobre as ruas da cidade), ocupam a via.

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O fotógrafo Felipe Morozini tem relação de longa data com o espaço

Há quem defenda o desmonte do Minhocão. Para além de todo o transtorno causado e entulho acumulado por essa demolição (são 50 mil metros cúbicos de concreto “protendido e pré-armado”, lembra?), o presidente da Associação argumenta que a transformação da via em parque tem um significado muito maior. “Nós já temos a estrutura em uma cidade que não existe um espaço público decente. Nós estamos lutando para ocupar uma rua, um pedaço de asfalto”.

“As pessoas entenderam que a cidade é a extensão da casa delas”, defende Felipe. “É um movimento mundial dos grandes centros urbanos. Os apartamentos são cada vez menores, não há mais vida dentro deles. Para viver, você precisa ir pra rua”. O fotógrafo destaca a importância deste momento de resignificação do símbolo que é o Minhocão. “As pessoas ocuparam um lugar seco, sem sombra, sem segurança — mas elas estão lá. Há o fator de se criar um dialogo com a cidade em que se mora. As pessoas gostam de estar ali, elas se sentem como parte da cidade”.

Associação Amigos do Parque Minhocão
minhocao.org

 


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