20 anos de estrada: o livro de Vinicius Andrade e Marcelo Morettin

Arquitetos e urbanistas Vinicius Andrade e Marcelo Morettin apresentam projetos em livro artsy e didático e revisam carreira singular pautada pela relação amistosa com a cidade de SP

  • 14 outubro 2016
  • Por:Cinthia Rodrigues
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Vinicius de Andrade e Marcelo Morettin apresentam no livro a visão de como uma arquitetura pensada para atender as particularidades do Brasil é mais eficiente

Quando eles começaram a praticar o “exercício” da arquitetura em 1987, com a abertura de um escritório em São Paulo, os arquitetos Vinicius de Andrade e Marcelo Morettin, formados pela FAU- USP, se depararam com uma questão peculiar e de fundamental importância. Afinal, porque a arquitetura praticada até então era francamente inspirada em modelos mediterrâneos e não tropicais, muito mais adequados ao nosso clima brasileiro?

Com vinte anos de escritório e o lançamento do livro Andrade Morettin – Cadernos de Arquitetura (Editora BEĨ – R$ 120), os profissionais já podem responder a essa pergunta. Eles apresentam sua visão de como uma arquitetura pensada para a nossa vivência é mais eficiente. Além de ser esteticamente muito mais agradável e referência para novas gerações.

Assim Vinicius Andrade define sua busca pela arquitetura de pesquisa sobre esse tema. “Existe uma coerência acachapante entre as arquiteturas vernaculares das regiões quente e úmidas em todo o planeta. Essa expressão é marcada pela extrema leveza e pode ser observada no Brasil na forma de palafitas, ou ocas indígenas”, diz.

Junto com o sócio Marcelo Morettin, a dupla construiu projetos que desenvolvem uma relação delicada com o meio ambiente, muita luz, leveza e uso de componentes industrializados ou pré-fabricados. É o caso dos exemplos escolhidos para o livro, como o Edifício Box 298 (onde o livro será lançado, na Vila Madalena), a residência RR, o Edifício Pop, o IMS (Instituto Moreira Salles) em construção na avenida Paulista e o Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada). Há detalhes sobre como foram idealizados, conferindo um espírito de caderno de anotação, didático, essencial para estudantes e interessados no tema, transcendendo o interesse específico, muitas vezes confinado a um gueto. “Queríamos compartilhar com os leitores além do aspecto formal de nossos projetos. Isso pautou a formatação do livro”, diz Marcelo Morettin.

O primeiro caderno traz um texto escrito pelo arquiteto e designer Edwin Heathcote, crítico de arquitetura e design do jornal inglês Financial Times desde 1999, e uma entrevista extensa e minuciosa sobre as duas décadas do escritório escrita por Fernando Serapião, crítico brasileiro de arquitetura e editor da revista Monolito.

Abaixo, o arquiteto Vinicius Andrade fala sobre a Arquitetura no Trópicos, a cidade de São Paulo como desafio para novos projetos, o legado modernista e o fio condutor de seu escritório.

Giz: O que significa a expressão Arquitetura nos Trópicos? Onde vemos isso e qual a participação do escritório na construção dessa marca?

Vinicius Andrade: A ideia de Arquitetura nos Trópicos surgiu de uma pesquisa independente que realizamos em nosso escritório. Ao longo desses vinte anos de prática profissional nos deparamos inúmeras vezes com uma lacuna importante em nossa formação, que é justamente um conhecimento mais aprofundado do que significa construir em um clima como o nosso, ou seja: quente e úmido. A influência da arquitetura mediterrânea em nossa cultura é praticamente hegemônica e isso fez com que uma importante sabedoria local fosse negligenciada. Mais do que isso, acabamos identificando que existe uma coerência acachapante entre as arquiteturas vernaculares das regiões quente e úmidas em todo o planeta. Essa expressão é marcada pela extrema leveza e pode ser observada no Brasil na forma de palafitas, ou ocas indígenas, por exemplo.

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Edifício Box 298, localizado na Vila Madalena, é exemplo de projetos assinados pela dupla de arquitetos que desenvolve uma relação delicada com o meio ambiente, muita luz, leveza e uso de componentes industrializados ou pré-fabricados

Giz: Como fazer arquitetura numa cidade como São Paulo, repleta de desafios de mobilidade urbana, população gigantesca e confusão arquitetônica?

Vinicius Andrade: São Paulo deixou de ser uma cidade para se tornar um complexo urbano de dimensões inéditas. As ferramentas de projeto que conhecemos tornaram-se inócuas. Existe um desafio de gestão urbana e territorial que paira sobre nossas cabeças e acho que não será resolvido enquanto não soubermos reinterpretar aquilo que chamamos de cidade.
Por outro lado, existe e sempre existirão os desafios locais, mais perceptíveis na escala das pessoas. Para esses desafios, a arquitetura pode ser uma ferramenta bastante útil. Alguns aspectos nos parecem particularmente urgentes, entre eles podemos citar a necessidade de resgatar a boa relação entre o espaço público e o espaço privado ou a construção de uma paisagem mais amistosa, mais leve.

Giz: Já é possível dizer que o modernismo da trinca Niemeyer, Lúcio Costa e Athos Bulcão está abrindo espaço para uma nova concepção de arquitetura brasileira?

Vinicius Andrade: A produção arquitetônica moderna no Brasil sempre foi bastante diversificada, mas concordo que algumas correntes estiveram um pouco à sombra. A arquitetura desta trinca alcançou maior projeção por tornar-se, de certa forma, a arquitetura oficial do regime, recebendo a grande maioria das encomendas por parte do Estado.
Acho que podemos dizer que o auge desta hegemonia passou, particularmente porque o Estado deixou de ser o maior promotor da arquitetura no país. Acredito que o momento é propício para o estabelecimento de um ambiente onde a diversidade seja mais valorizada do que a busca por um novo discurso hegemônico.

Giz: Vocês completam vinte anos com excelentes projetos. Qual é o fio condutor da Andrade Morettin?

Vinicius Andrade: Gostamos de pensar que o fio condutor da nossa produção é a disposição para o enfrentamento de problemas arquitetônicos de forma aberta, sem soluções pré-determinadas. Aquilo que unifica nossa obra é, acima de tudo, uma forma de encarar os desafios e a busca por soluções cuja beleza reside na capacidade de expressar o raciocínio que está por trás das decisões de projeto. Paralelamente, nossa pesquisa por uma arquitetura tropical e pelo uso de componentes industrializados ou pré-fabricados, também tem marcado nossa produção que acaba se identificando pela leveza ou por sua natureza essencial.

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Ficha técnica
Título: Andrade Morettin – Cadernos de Arquitetura
Editora: BEĨ Editora
Idiomas: Português e Inglês
208 páginas

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