Segunda publicação de Erika Balbino, “O Osso: Poder e Permissão” reúne relatos da vida paulistana e as dissonâncias pela sobrevivência na metrópole

Estruturada em capítulos curtos em alusão ao tempo recortado passado no transporte público, narrativa convoca alegorias que vestem a metrópole como um microcosmo de luta pela sobrevivência. Escritora e comunicadora à frente da Baobá conta sobre como sua trajetória de vida a levou à produção desta obra

  • 28 novembro 2017

Após o sucesso de  seu primeiro livro, Erika Balbino publica agora, pela Editora Cosmos, “O Osso: Poder e Permissão”, que reúne em 252 páginas histórias sobre a vida vista e vivida em São Paulo. Com prefácio do rapper GOG, introdução do professor, escritor e tradutor José Arrabal, e fotos de Gal Oppido, o lançamento acontece em 28 de novembro, às 19h, na Livaria Martins Fontes da Avenida Paulista, em São Paulo.

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O livro, que começou a ser escrito em 2006, foi mantido na gaveta durante anos pela comunicadora, que pensava que, meio ao lançamento de “Cidade de Deus” e da produção de saraus como o Cooperifa, àquela época estaria produzindo mais do mesmo. Alguns anos depois, lançou, de fato, sua primeira publicação, “Num Tronco de Iroko Vi a Iúna Cantar”, infanto-juvenil, com as três mil edições esgotadas. “Como fez um sucesso interessante, resolvi mostrar este outro para uma amiga jornalista, que achou que, se eu mudasse algumas coisas apenas em relação a datas, ainda seria muito atual e que, independentemente do que tivesse sido feito e escrito, esta seria minha maneira de ver a coisa.” Bastou apenas mais um empurrãozinho do professor José Arrabal — que foi seu professor no curso de Cinema da Faap e que reencontrou após anos — para a coisa sair no papel.

Apesar de classificado como de ficção, “O Osso: Poder e Permissão” é amplamente baseado em experiências pessoais. “Com raras exceções – até mesmo para preservar pessoas –, eu mudei locais e nomes. Mas, basicamente, 75% do livro são situações que eu vivenciei, em que estava perto, em que pude ser observadora ativa”, conta a autora. A relação com São Paulo tem a ver com os hábitos notívagos e caminhantes da adolescência. Nascida, criada e apaixonada pelo Bosque da Saúde – bairro que faz muitos check-ins no livro –, tem uma relação muito forte com a capital. “Acho que São Paulo não é óbvia – tem que ter muito olho para conseguir enxergar, porque é uma cidade que tem personagens invisíveis e é uma cidade que, por meio do seu poder, e por meio de ações às que no nosso dia a dia a gente se permite, a gente fica invisível. E aí foi essa a construção que comecei a observar”, comenta, indicando o que a levou a escrever sua mais recentemente lançada história, ambientada na fictícia favela do Canhão, sobre junções e contradições culturais e sociopolíticas pouco declaradas. Um dos objetivos era dar evidência ao que está à margem. “Apesar de a cidade ser protagonista, ela tem muitas pessoas completamente anônimas. E depende do âmbito. No livro você vai ver que tem uma pessoa que é completamente anônima dentro do ambiente de trabalho dela, mas, fora, é um mestre de capoeira renomado. Assim como terá um cirurgião que, na capoeira, que começou para sair da depressão, é mais um corpo político dentro de uma estrutura que não domina.”

Foi a mesma falta de sono que em 2006 levou Erika a se envolver em diversas atividades pela cidade a que a pôs para escrever. “Foi um ano muito difícil pra mim. Eu estava passando por problemas que se refletiram no meu corpo como insônia. Nesse um ano, fiquei fazendo muita coisa, vivendo muita coisa, indo em roda de capoeira etc”, conta. “Então esse livro sempre foi escrito durante as madrugadas.”

O título, Erika explica: “O osso é nosso corpo político. A gente é mordido e abocanhado o tempo inteiro. O tempo inteiro estão tentando tirar algo da gente e fica, então, essa estrutura óssea, e como a  gente reage quando alguém impõe alguma coisa sobre nós. E quando nós, de alguma forma, temos algum tipo de poder, e como somos permissivos com certas situações com as quais não deveríamos concordar e, ao mesmo tempo, como às vezes a gente se permite fazer coisas que nos tiram da nossa zona de conforto.” Para ela, a cidade fortalece essa percepção e é também ativa nisso, porque também exerce poder sobre as pessoas que pode ser opressor e, simultaneamente, provocador. “Essa coisa do osso também significa que tem alguma coisa dentro da gente que, por mais que esse corpo político circule sobre questões de poder e permissão, seja instinto animal. E que, por mais que a gente caminhe por diferentes ambientes, por mais que a gente seja corpos políticos diferentes em determinados ambientes, temos algo – que não percebemos – que não vai mudar: aquela coisa instintiva.”

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Estrutura

O livro é estruturado em vários capítulos e cada um é, basicamente, um personagem. O ritmo picado da leitura – ditado também pelo modo meio roteirizado de escrever de Erika, como já apontou o jornalista Wagner Merije – é, sobretudo, uma alusão ao tempo passado no transporte público. “Eu sempre leio muito no metrô. Apesar de hoje muita gente ficar no celular, sou da geração que ia pra faculdade, pro trabalho, voltava, etc, lendo”, comenta. Então todo capítulo da publicação pode ser contemplado no trajeto subterrâneo que Erika fazia para ir trabalhar, um caminho que ia da Praça da Árvore à Estação Brigadeiro – perto de onde ficava o Ministério do Turismo da França, onde ficou por 17 anos antes de decidir sair e abrir sua Baobá Comunicação.

Os capítulos têm conexão entre si, e, segundo a autora, ainda que talvez não tenha ficado explicitado, todas as pessoas se encontraram em algum momento no metrô. “Se você faz o mesmo trajeto de metrô todo dia, acaba entrando no mesmo vagão mais ou menos no mesmo horário. O que significa que, quase todo dia, pelo menos uns três rostos conhecidos você vai encontrar, e isso, de alguma forma, te dá um conforto.”

Começo na escrita

Foi José Arrabal, quem assina a introdução do livro, o responsável por inserir Erika na escrita. “Na Faap, ele basicamente usava a aula dele para a gente escrever poesia e conto. Às vezes individualmente, às vezes em dupla, em trio. Aí você entregava e tinha que ler na frente das pessoas. Eu era extremamente tímida – e o Arrabal sabia disso. As duas vezes que ele me fez ler na frente da sala, eu li chorando, mas chorando de me debulhar”, relembra.

Quando saiu da Fundação, em 1991, não havia meios digitais de comunicação. Foi quando foi publicar o primeiro livro pela Editora Peirópolis que avistou o nome do professor em uma outra capa. Reconheceu-o. Retomou o contato e mostrou este livro a ele. Outro docente, Milton Amaral, aperfeiçoou sua forma roteirizada de escrever.

“Não sou conduzido, conduzo”

A frase, originalmente “Non ducor duco”, em latim, está escrita na bandeira de São Paulo. E no status de whatsapp de Erika, que não tinha se atentado para a correspondência até então. “É verdade, tem muito a ver com o que eu coloco no livro”, diz. Ela, que abre mão apenas temporariamente de São Paulo e apenas por uns dias no campo, tem na cidade sua matriz inspiradora. O próximo livro em que está trabalhando, inclusive, resgata uma construção historicamente importante da capital: a influência da atuação capoeirista, o que inclui a capoeira escrava, o período da capoeira pós-liberação da ditadura, o momento atual da capoeira, e como o corpo desse homem-capoeira transita em diferentes situações.

Capoeira

Tão influente quanto a maior metrópole sul-americana, a capoeira é outro assunto proeminente nas obras de Erika – são duas publicadas e outras duas em produção; a terceira, sobre uma garota capoeirista, trazendo a questão do gênero nesta prática.  “Tem muito mestre de capoeira até que me pede pra escrever biografia”, ela comenta. “Mas é falta de tempo, porque eu também trabalho com outra coisa, e isso eu até abordo no livro: a gente é engolido por uma engrenagem que nos faz fazer as coisas muito bem feitas pra quem tem um poder sobre nós – que, normalmente, é nosso trabalho ou nossa família – e as nossas coisas mesmo, aquilo que nos motiva e amamos de paixão, a gente faz de qualquer jeito.”

Quando estava aos 30 anos e padecia em depressão profunda, Erika aceitou o convite de um amigo para participar do projeto “Escola da Família”, que procurava por voluntários do colégio Júlio Ribeiro. “Quando entramos lá, estava tendo uma aula de capoeira na quadra principal. Até sermos recebidos pelo coordenador do projeto, ficamos sentados. E aí eu falei ‘pô, taí uma coisa que eu sempre quis fazer e minha mãe não deixou’.” Segundo Erika, sua mãe, por já ter sofrido preconceito, pensou que seria difícil encarar mais a imagem do negro marginalizado. Ela continua: “Um cara que estava ao lado falou ‘você está meio grandinha para sua mãe não deixar’. Comecei a rir. Era o professor de capoeira, trajado em roupas casuais. Meus dois amigos foram voluntários na escola e eu entrei para a capoeira.” Apesar de ter parado há seis anos, ainda frequenta rodas de vez em quando, e a atividade ficou permanentemente marcada em sua vida.

 

Ficha Técnica
Título: O Osso: Poder e Permissão
Autora: Erika Balbino
Fotos: Gal Oppido
Prefácio: GOG
Apresentação: José Arrabal
Editora: Editora Cosmos
Páginas: 252 páginas
Formato: 13 x 19 cm
Preço: R$ 49,00

Lançamento: 28 de novembro, terça-feira, das 19h às 22h | Livraria Martins Fontes – Av. Paulista, 509, São Paulo