Bauhaus Hot Chili Pepper: nosso publisher se hospedou no Antumalal, tesouro modernista projetado pelo arquiteto Jorge Elton Álamos, no Chile

Tesouro modernista da América do Sul projetado pelo arquiteto chileno Jorge Elton Álamos, o hotel Antumalal é uma experiência arquitetônica tão estratosférica quanto o vulcão que se avista de suas paredes de vidro

  • 29 dezembro 2016

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Partindo de São Paulo, são quatro horas de voo até Santiago, uma conexão de outras duas até Temuco e mais uma hora e meia de carro até Pucón – milhas quase suficientes para cruzar o Atlântico e fazer compras em Miami, numa analogia vulgar.

Mas passou da hora de nós, brasileiros, desbravarmos mais – e melhor – cercanias do lado de cá da América, bem mais valiosas do que as efemérides de consumo. Se você for arquiteto (ou amante das “cousas” da arquitetura), aí sim é que o seu patrimônio cultural merece o upgrade turbinado made in Hemisfério Sul. Nessa categoria, o hotel Antumalal, encaixado lá na pontinha da Cordilheira dos Andes, entre jardins, cachoeiras e terraços naturais, é uma experiência sem precedentes.

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À primeira vista, impossível não pensar nas lições bauhausianas de contenção e equilíbrio postadas pela turma de Mies van der Rohe, mas a inspiração do traço, neste caso, fica um pouco mais embaixo no mapa. Projetado pelo arquiteto chileno Jorge Elton Álamos nos anos 1940, o Antumalal bebe na fonte das construções do americano Frank Lloyd Wright, famoso pelas obras integradas com a paisagem. E Elton se serviu fartamente do entorno ao imaginar essa caixa horizontal de concreto, madeira e vidro, com telhados planos, fachadas lisas, formas cúbicas e ângulos retos. Não é necessariamente uma mimese, mas o impacto ambiental é nulo e o efeito, espetacular. “A regra número um foi a de que, para construir ali, nenhuma árvore poderia ser cortada ou tocada. Assim, o edifício foi entalhado e integrado ao que já havia, e não o contrário”, conta a simpática Rony Pollak, herdeira do casal de imigrantes tchecos Guillermo e Catalina, que hoje comanda os negócios.

Projetado pelo arquiteto chileno Jorge Elton Álamos nos anos 1940, o Antumalal bebe na fonte das construções do americano Frank Lloyd Wright, famoso pelas obras integradas com a paisagem

Esse input preservacionista ajuda a potencializar a catarse da paisagem: florestas e bosques de contos de fadas, flores que parecem aquelas pintadas por Monet, a topografia sinuosa com montanhas que alcançam as nuvens com seus picos nevados, a laguna Villarica e o vulcão homônimo – nem tão adormecido assim, já que a sua última erupção rolou em março de 2015, sem catástrofes, graças a Deus. Totalmente avarandado para assumir a função de mirante, com vidraças panorâmicas em praticamente todos os ambientes, confundindo os limites entre dentro ou fora, a construção principal debruçada sobre o promontório rochoso é uma obra-prima modernista que já ganhou prêmios e as páginas das maiores publicações do mundo – incluindo livros editados pela Taschen com fotos do top Tuca Reinés, habitué do Antumalal que também assina os cliques desta reportagem. Isso tudo sem entrar no mérito elementar da gastronomia, do spa e dos amenities tipo high lux.

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Curiosidade: inundados pela luz natural, o lounge principal, o restaurante e todos os 22 apartamentos têm paredes revestidas de araucárias chilenas (o uso dessa madeira só foi proibido por lá no início dos anos 1970). Junto com o mobiliário industrial (muitas peças remetem ao riscado de Lina Bo Bardi e Le Corbusier, mas tudo foi feito com exclusividade para o Antumalal), esses elementos compõem um clima de “futuro do pretérito” que promete ser moderno – e iluminado – para sempre. Não é à toa que a palavra Antumalal significa “Curral do Sol” na língua nativa do povo andino mapudungun.

Hotel Antumalal
antumalal.com