Revista Giz

03 Mai 2017 - Jul 2017

#3 | Água Viva

DROPS

Muito além do chocolate: de Zurique a Lugano, os pontos em que o design é celebrado na Suíça

Em viagem ao país alpino, a jornalista Silviane Neno desvenda para a GIZ 3 o mapa do circuito mais quente da estação

  • Por:Silviane Neno, da Suíça
  • 14 julho 2017

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No inverno de 1963, o lago de Zurique, na Suíça, congelou pela última vez. A guia de turismo Andrea Jacomet se lembra bem desse dia, em que os avós a levaram para patinar no gigantesco tapete de gelo. Corta. Num domingo solar da primavera de 2017, o único gelo à vista era no pico das montanhas nos Alpes. Zurique, ali naquele pedaço de limpíssimo oxigênio, em nada lembrava a sisuda Bahnhofstrasse, a famosa rua dos bancos num dia de semana – ou a austeridade do elegante Kronenhalle. Há um perfume mais jovem no ar. É uma nova cena iluminada e ampliada pela região West da cidade. Nos últimos dez anos, o distrito industrial se transformou na área mais trendy in town. A cena acontece ao redor da Prime Tower – segundo edifício mais alto do país. Perto dali está o grande átrio da Universidade das Artes, a mais antiga da Suíça, dentro da Toni Areal. No ano que vem o espaço passará a abrigar o Museu do Design, cujo acervo é atalho para atrair caravanas de aficionados do mundo inteiro.

Se a urbe é moderninha, a dica é se hospedar no novíssimo hotel 25 hours Langstrasse, cravado na Europaallee, zona cosmopolita e animadíssima, principalmente à noite. O hotel também abriga o Neni, restô da rede austríaca comandada pela chef Haya Molcho e seus quatro filhos. Antes de seguir viagem, vale almoçar no Haus Hiltl, o primeiro restaurante vegetariano do mundo, criado em 1898. Saudável, sim. Sem gosto, jamais, especialmente nas altas concentrações de curry indiano.

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No trem da moda

O trem é a melhor forma de seguir viagem até Saint-Gall, pequena cidade do leste suíço, a 82 km de Zurique. Com o Swiss Travel Pass, você viaja na Primeira Classe, com direito a passeios de barco e ônibus incluídos no tíquete. Com seu centro histórico fechado para o trânsito, casas do século 16 ao 18, de esplêndidas janelas e sacadas pintadas, a cidade é conhecida mundialmente pelos seus bordados. Onde você acha que Karl Lagerfeld compra o tweed rebuscado dos seus tailleurs? Um bom segredo? A Jakob Schlaepfer abastece o mundo da moda (Chanel inclusive) há um século. Cada coleção começa com visões têxteis para moda e arquitetura. Um luxo, cuja narrativa explode em precisão e capricho nas exposições muito bem cuidadas e fascinantes do Museu Têxtil de Saint-Gall.

Num passeio a pé pelo bairro Bleichi, é surpreendente pisar no “Lounge vermelho”, um gigantesco espaço entre prédios de escritórios coberto por um revestimento em borracha vermelha granulada. Criado pelo arquiteto Carlos Martinez e pela artista Pipilotti Rist, é o primeiro parklet da Suíça.

O marco da cidade é o Convento de Saint-Gall, com sua catedral barroca. A igreja, incluindo os arquivos do mosteiro e da inacreditável biblioteca da Abadia, foram adicionados à lista de Patrimônios da Humanidade da Unesco em 1983. O mergulho no tempo ganha contornos gourmets no Gaststuben zum Schlössli. Jante numa das salas do castelo de 500 anos e vá para cama 2 quilos mais sábio. Nada que represente um problema se estiver hospedado no Oberwaid Kurhotel, o hotel spa com ótima programação para queimar gordices de turistas.

Antes de partir, estique até Rorschach, cidade portuária no Lago de Constança, onde está o Fórum Würth. Além da interessante coleção de arte, o prédio todo de vidro é uma obra-prima do escritório Gygon/Guyer.

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Ciao Lugano

Sorria, você está na Itália – só que não. Na maior cidade da região do Ticino, a Suíça italiana, os garçons do restaurante Ana Capri falam gesticulando, o prato do dia é espaguete à carbonara e o biscoitinho Amaretto acompanha o café. Lugano durante a primavera é um convite a se perder nas ruas do centro histórico, ou explorar um de seus 11 parques. Um dos mais bonitos é o San Grato Botanical Park, com 62 mil metros quadrados e centenas de azaleias. Nada que se compare, no entanto, a percorrer o lago, em passeios de barco, a pé ou de bike, tendo ao fundo os montes Bré e Salvatore.

Com 130 anos de tradição, o hotel Splendide Royal talvez tenha uma das vistas mais privilegiadas do lago. Por estar tão pertinho de Milão, Lugano tem forte conexão com design e arte. Na mesma semana do Salone del Mobile, o projeto Artificio promove novos designers suíços com mostras em vários espaços. Trinta pranchetas – entre eles o curador Kiko Gianocca – expõem seus trabalhos nas vitrines das principais lojas do centro. O restaurante Gran Café Al Porto, é, desde 1803, ponto de encontro de políticos, artistas e elegantes da cidade. No segundo andar, há uma sala secreta (você pode reservar), onde, em 1945, membros do exército alemão e aliados estavam reunidos quando foram informados sobre a rendição dos alemães na Itália. Era o começo do fim da Segunda Guerra Mundial. Neutra, a Suíça nunca foi invadida. Sem guerra, pode agora contar uma história feita de sucessivas camadas de renovações.

*A jornalista viajou a convite do escritório que promove o turismo na Suíça

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À esquerda, o carrinho de madeira Pachuco, assinado pelo escritório Bureau A, é uma das boas novas do design suíço. À direita, cadeira Flip, que também vira mesa, de Adrien Rovero Studio, e colar Venner Neckpieces, do curador design e joalheiro Kiko Gianocca, que mantém ateliê em Lugano