Revista Giz

02 Fev 2017 - Abr 2017

#2 | Nenhuma Nudez Será Castigada

Entre 2 mundos: o olhar do fotógrafo Romulo Fialdini sobre a Índia

A Índia está longe de ser um destino convencional graças aos extremos que vão do caos urbano à tranquilidade dos monastérios cravados aos pés do Himalaia. Para desvendar segredos locais sob outro prisma, Romulo Fialdini nos empresta a poesia de seu olhar

  • 12 maio 2017

giz-2-india-romulo-fialdini-1

A palavra que melhor traduz a Índia é a multiplicidade. País situado na porção oriental do mapa – precisamente na Ásia Meridional –, dono da segunda maior população da Terra (estamos falando de 1,1 bilhão de pessoas!), o lugar é banhando pelo Oceano Índico e fronteirado pelo Paquistão, China, Nepal, Butão, Bangladesh e Mianmar. Por seus caminhos passaram desde navegadores contemporâneos a Cabral, que, por sinal, procurava a Índia (e não o Brasil) quando se aventurou pelo Atlântico atrás das especiarias – vale lembrar que açafrão, anis, curry, páprica e tomilho eram o ouro daquela época.

giz-2-india-romulo-fialdini-10

As muitas camadas de história que recobrem o solo indostânico explicam tamanha diversidade de um dos destinos mais simbólicos do globo, cujos primeiros rascunhos surgiram nas cidades edificadas em 3.600 a.C., próximas ao Rio Indo. Na atualidade, a condição de ser “múltipla” manteve-se presente nos 18 idiomas reconhecidos e nos outros tantos dialetos praticados nas comunidades, além das religiões que habitam por aquelas adjacências: hinduísmo, budismo, jainismo, sikhismo, zoroastrismo, judaísmo, cristianismo e islamismo.

giz-2-india-romulo-fialdini-5Ainda que a Índia seja considerada singular, ela é um roteiro planejado para viajantes experientes e sem pudores. Sim, Bharat (seu nome em persa antigo) pode assustar quem não desgruda da bolsa Chanel e não descuida do penteado milimetricamente desenhado por algum hair stylist bacanudo do Ocidente. Por ali, recomenda o fotógrafo Romulo Fialdini – adepto do “movimento sem frescura”, que prefere um bom par de tênis, camiseta e jeans ao terno e sapatos de bico fino –, é ideal mergulhar na cultura e conversar com os moradores sem conceitos pré-formatados. “Para curtir a trip é preciso deixar o convencionalismo de lado e se jogar de verdade. Há cidades deslumbrantes, que parecem pinturas de tão perfeitas, mas também há miséria, e ela não é fácil de encarar”, avisa.

giz-2-india-romulo-fialdini-4Segundo levantamento do Ministério do Turismo (tourism.gov.in), a região recebeu 8,3 milhões de visitantes em 2015 e, no primeiro semestre de 2016, esse número já alcançava 4,1 milhões. Rota preferida dos norte-americanos, que correspondem a 15,12% do total de estrangeiros, a República da Índia alcança a 40a posição entre os points mais procurados do mundo. Com ofertas de itinerários que incluem passeios luxuosos de trem via Maharaja’s Express (the-maharajas.com) até os mochilões desconectados pertinho dos limites com o Nepal, passando pelos tradicionais percursos budistas e pelos desertos (incredibleindia.org), há a agitação de endereços como o Connaught Place (delhitourism.gov.in), onde restaurantes, cafés e lojas de marcas internacionais reforçam o perfil pluralista do lugar.

giz-2-india-romulo-fialdini-3“Fiz um tour de 15 dias, que incluiu Deli, Ladakh, Varanasi, Jaipur e Agra. Não deu para ir a Mumbai, que ficará para a próxima vez”, relembra Fialdini. A primeira investida é Deli, ex-capital do Império Mongol, em 1638, hoje fatiada em Nova Deli, projetada por arquitetos britânicos, liderados por Edwin Lutyens, em 1911, e Velha Deli, onde se concentram os emaranhados habitacionais, com esgoto a céu aberto e caos por todos os lados. “Deli, sem distinção entre as partes, é uma releitura da Rua 25 de Março, em São Paulo, às vésperas do carnaval, depois de um temporal típico de verão. É uma bagunça! Tem alguns prédios suntuosos, muitos parques, mas o trânsito é complicado – tuk tuk, bicicletas, ônibus, carros e pedestres brigando pelo mesmo espaço. Ainda assim, é encantador e real”, conta Romulo. Para se hospedar, o The Lodhi (thelodhi.com) expõe traços modernos e gastronomia estrelada.

giz-2-india-romulo-fialdini-2Depois é a vez de destrinchar os contornos de Ladakh, região histórica que já pertenceu à Caxemira e serve de cenário para dezenas de monastérios budistas. “A geografia montanhosa do ‘Pequeno Tibet’ é um convite ao relaxamento. Até o Dalai Lama vive nas proximidades. Sem dúvida, é o lugar mais lindo do mundo. De um silêncio reconfortante. Existem vilas para receber os viajantes – são casas adaptadas para o turismo. Todas contam com serviço de chef particular, mas os donos, embora morem sob o mesmo teto, não se envolvem diretamente com os hóspedes”, esclarece o fotógrafo.
Com a alma despida dos equívocos terrenos e com as energias revigoradas, é hora de visitar Varanasi. “Dizem que quem morre nesta paragem, também conhecida como Benares, reencarnará como ser humano. Uma proposta tentadora para quem acredita em carma”, sintetiza Romulo.

Caminho das Índias

Os coloridos sensuais e a musicalidade à flor da pele são outros predicados que ajudam a entender o desconcertante roteiro. Nesse contexto, Jaipur torna-se obrigatória. A maior cidade do Rajastão exibe fachadas pintadas de cor de rosa desde 1876, quando Jorge, então Príncipe de Gales, fez pit stop ali. No auge de seus 289 anos, a morada dos marajás, idealizada sobre terras desérticas, serve de palco para os homens de turbantes cintilantes, montados em seus elefantes superenfeitados, desfilarem em procissão para anunciar a Holi, festa da primavera.
“Confesso que o hotel Rambagh Palace (grandluxuryhotels.com) já vale a estadia. Trata-se de uma construção palaciana aperfeiçoada para as necessidades hoteleiras de alto padrão. Luxo indescritível. É importante esticar até Agra para conhecer uma das edificações mais emblemáticas da história.” O conselho refere-se ao Taj Mahal, projetado para homenagear Arymand Banu, esposa favorita do imperador Shah Jahan. O mausoléu precisou de 20 mil homens e de 21 anos para ficar pronto. “Às margens do Ganges, o monumento está, literalmente, em solo sagrado. É lindo de se ver, mas programe apenas um dia”, reforça.

giz-2-india-romulo-fialdini-9A saga para quem quer ir mais longe se encerra em Bombaim – ou Mumbai. Cáustica, com 13 milhões de habitantes se acotovelando num centro urbano espremido, porto para as caravelas portuguesas nos idos de 1500, há quem afirme que o seu nome é uma corruptela de “Boa Bahia”, que os ingleses elevaram ao topônimo “Bombay”.
Diante dessa mélange cultural, para decifrar os hábitos hindus torna-se essencial refletir sobre Bollywood, indústria cinematográfica inspirada na prima rica, Hollywood, e que chega a produzir mil filmes por ano. Beijos ou afagos atrevidos são proibidos nas telonas; o que se vê são enredos que apresentam amores impossíveis, deuses impiedosos, políticos desmoralizados, castas extintas e muita (muita mesmo!) dancinha de pescoço! É aí que a Índia se revela ao mundo sem reservas.

giz-2-india-romulo-fialdini-8Soa paradoxal – como se toda a extensão do país, um pseudoconservadorismo com os dois pés calçados na globalização, saboreasse as águas fétidas de sua artéria principal com o glamour de quem se lambuza do champanhe mais caro do menu. Talvez tenha sido esse o elixir que enfeitiçou os Beatles – ou talvez tenha sido apenas o som dramático da cítara. Assim se desdobra a Índia: antagônica em suas tangentes adjetivas, visceral em suas linhas brutas. Eis um destino para fortes.