Revista Giz

01 Out 2016 - Dez 2016

#1 | Edição de Estreia

Giramundo: o olhar viajante do carioca Denilson Machado

O carioca Denilson Machado, um dos principais fotógrafos de arquitetura e interiores do Brasil, apresenta, na primeira trip da GIZ, a série “Uma outra arquitetura”, em que se despe dos briefings aritméticos que o ofício exige, para capturar as belezas das imperfeições

  • Por:Cynthia Garcia
  • Fotos:Denilson Machado
  • 18 outubro 2016
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Registro de Denilson Machado em uma das cenas mais vistas em Cuba, em que varais se destacam perante paredes descascadas

Concordo com um amigo carioca que jura de pé junto que a imprensa internacional sente pelo Rio uma “inveja cósmica”. Cidades como Paris, Londres e Nova York são hábeis em esconder seus podres por baixo de fachadas estéticas, capciosas, pero que los hay, los hay. No entanto, sinto que a tal invídia é mais abrangente. Estende-se a toda a América Latina que já percebe seu potencial turbinado por nosso instinto de sobrevivência, ou melhor, nossa vital teimosia. Analisado por um prisma sociocultural, o paralelo do Equador que intersecciona a Terra situa-se, em realidade, na fronteira EUA-México, onde quem sabe será erguido o “Muro de Berlim” latino-americano caso tio Sam eleja o Donald (que não é pato, mas tentará fazer de nós patinhos). Não temos ilusões sobre a dura realidade de nosso continente bipartido por uma espécie de Linha Maginot andina que nos separa entre aqueles que hablan castellano e os que falam português, mas temos consciência que o sangue latino nos une em uma invisível santa aliança.

Descobertas em caminhadas por aleias e becos de Havana, Cartagena, Lima e do Rio, as imagens neste ensaio do fotógrafo carioca Denilson Machado revelam passagens, paredes, cantos e escaleras al cielo dessas cidades com algo comum a todas: a veia latina. A série resgata a imponência tropicalista da arquitetura burguesa de outrora, fruto do processo de mestiçagem de nossas raízes pré-colombianas com a negra e a europeia, ao mesmo tempo em que enquadra de frente a banalidade decadente que tentamos dissimular – os dois lados da mesma moeda. Decadência incomoda, não se tira de letra como os dribles do jogo bonito do Garrincha ou o requebrado da mulata. Como decadente se nem o apogeu atingimos? Mas é essa malaise (mal-estar na língua de Molière) provocada pelo olhar sensível do fotógrafo que separa a arte de foto postada em rede social.

Soy loco por ti, América …)
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca
De Latinoamérica
Y el cielo como bandera (…)
Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores

(*) Gravada em 68 por Caetano em seu primeiro disco, a música com letra em portunhol de Gil, Torquato Neto e Capinan virou símbolo do nosso Tropicalismo continental. Somos loucos por ti, América!

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Paredes descascadas: cenário típico de Havana que remete à filmes antigos em que circulam carros dos anos 50

Havana

Para mergulhar em La Habana, coloque “Chan Chan” no iPod, som do trovador Compay Segundo, uma das estrelas da banda Buena Vista Social Club, eternizada na telona por Wim Wenders, e faça como Hemingway: “O mojito é no La Bodeguita, o daiquiri no El Floridita”. La Habana é uma organizada anarquia caribenha arquitetada por Fidel que foge a qualquer estereótipo sociopolítico urbano. Os habaneros têm um ritmo requebrado nos quadris, uma malemolência malandra e falam gesticulando como se estivessem no palco. As paredes descascadas de Havana parecem cenário de filme antigo por onde circulam carro dos anos 50 pintados em rosa pó de arroz e azul calcinha, que passeiam sem pressa envoltos na maresia do Malecón, a avenida balneária. Em 1961, antes da frustrada invasão da CIA à Baía dos Porcos, Kennedy importou 1.200 puros (charutos) da valente ilha latino-americana, com a qual Obama está restituindo relações diplomáticas para botá-la no mapa comercial do insaciável tio Sam. Não conhece Havana? Então previna-se como fez JFK. Vá antes da invasão do Starbucks para seus olhos guardarem para sempre a atmosfera dessa cidade que o destino transformou em arquivo vivo da arquitetura ocidental tropical dos anos 1860 a 1960. Mas vá mesmo antes de ocorrer o que se vê hoje em Xangai, que de cidade chinesa virou apenas mais uma cidade na China…

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Denilson Machado eternizou este ambiente que traduz a beleza antiga de alguns pontos cariocas

Rio

O cronista carioca Carlos Heitor Cony foi quem notou que o Rio é a única cidade conhecida por apenas três letras. Fundada há 450 anos pela linhagem dos Sá, Estácio e Mem, na baía de Guanabara que fascinara e ainda seduz os franceses, a vila foi batizada São Sebastião do Rio de Janeiro em homenagem a dom Sebastião de Portugal, “o desejado”, e a seu santo protetor, o mais sensual (e gay) da igreja católica. Não só isso: sebastòs, em grego, significa divino… Por essas e outras dá para entender porque ser gostoso está no DNA carioca e ela ser a Cidade Maravilhosa. Vinicius levou a poesia do Rio aos quatro cantos ao som bossa-nova do Tom. Esse Rio idílico, berço de Leila Diniz e Cazuza, foi glorificado nas telas pop tropicalistas de Glauco Rodrigues que pincelou as cores do carnaval, pintou o futebol, ilustrou a sensualidade brasileira. O Rio agora vive mais um renascimento. Recebeu os Jogos Olímpicos de braços abertos com o Porto Maravilha, os museus MAR e do Amanhã, projeto do arquiteto espanhol Calatrava. Jardim Botânico, Botafogo, Flamengo e Laranjeiras, e ruas do centro histórico como a do Ouvidor e a do Rosário ganharam retrofit. Cinco de seus restaurantes envergam uma estrela na edição 2016 do Guia Michelin. A chama olímpica brilhou forte. E, lá de cima, o Cristo Redentor abençoou tudo do jeitinho carioca.

 

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Clique de Cartagena por Denilson Machado: cores quentes combinam com a simpática cidade colombiana

Cartagena

O sotaque caribenho de Gabriel García Márquez (1927-2014) disse ao botar os olhos no heróico porto de Cartagena das Índias: “Não contive o sentimento ao ver a luz topázio banhá-la ao entardecer. Me doem os olhos de tanto fitá-la”. A cidade, onde o autor do realismo mágico de Cem Anos de Solidão viveria, celebra o romantismo do século 16 colonial com sua muralha de pedra com campânulas amarelas e vielas ladeadas por sobrados com balcões rendilhados que inspiraram o escritor conhecido por Gabo em sua Colômbia natal. Ambientado nesta cidade portuária nos anos 40, Do Amor e Outros Demônios, primeira obra do futuro Nobel de Literatura, tem orixás, feitiços e lendas de arrepiar até os cabelos mais compridos… Em O Amor nos Tempos do Cólera, o Cervantes colombiano narra intrigas tramadas debaixo de panos bordados em ponto-cruz ao descrever a paixão de seu pai por sua mãe, personificados por Florentino e Fermina que perambulavam atormentados pelo amor impossível em lugares reais como Calle de las Ventanas, Calle del Candilejo e o Parque de la Aduana, onde o carnaval descrito em suas páginas ainda é comemorado. Conta ele em O General em seu Labirinto que a imponente vivenda na Calle de la Factoría, erguida pelo vice-rei Caballero y Góngora e onde viveu a marquesa de Valdehoyos que prosperou com o tráfico de escravos, hospedou Simon Bolívar, em 1830, nas últimas semanas do Libertador das Américas. Acima, fotos de Denilson Machado com detalhes de Cartagena.

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Olhar de Denilson Machado sobre Lima, adorada cidade peruana

Lima

No Dicionário do Amante da América Latina, ensaio do Nobel de Literatura peruano, Mario Vargas Llosa descreve assim sua cidade natal: “Muitas coisas nela me emocionam. Sua neblina, essa gaze que a encobre de maio a novembro. Gosto de sua garoa, de suas praias com grandes ondas, ideais para o surfe, de assistir as partidas de futebol no velho estádio. Mas essas são coisas muito pessoais, o mais lindo está em seu interior, em seus desertos, nos Andes, em suas florestas”. Uma aura de orgulho envolve Lima, dona de uma química singular que harmoniza o passado inca e sua carga simbólica com o hype contemporâneo. É uma das mais interessantes cidades de las Américas, as do norte incluídas, e ainda carrega o legado de uma das civilizações mais extraordinárias de todos os tempos. A culinária peruana é a gastronomia da vez puxada pelas inovações do chef Gaston Acurio que se baseia nos produtos regionais dessa terra que deu às caçarolas a batata, a cebola… Com seus têxteis artesanais com sofisticados motivos geométricos, a tradicional moda inca virou tema do mais novo museu da cidade, MATE, que também exibe a coleção de retratos de famosos clicados por seu fundador, o fotógrafo Mario Testino, limeño acirrado, que sempre afirma: “Tenho orgulho de minhas raízes”.

Buena Vista Social Club

“Hoje procurando um denominador comum nas fotografias me deparo com a arquitetura. Depois de passados tantos anos, estou impregnado de arquitetura e interiores. Eu já fotografo as séries Escaleras ao Cielo (escadas) e Wallpaper (tetos e paredes) numa óbvia relação com meu trabalho comercial. Busquei, e ainda busco, uma linguagem fora da arquitetura, mas agora é uma outra arquitetura, essa mais leve, sem o glamour dos italianos, com as imperfeições que a vida real tem e que tanto me emocionam. Há ainda uma certa decadência sem perder a elegância que os anos tentam roubar.

Sim, tem a passagem do tempo, um assunto muito importante para mim, e não me importam as histórias antigas, só me importam as marcas deixadas, e também existem as cores e há muitos azuis, uns tristes e outros ainda mais tristes, para só depois ter um outro azul que, de tão alegre, nem parece um azul; um verde aqui, um vermelho apaixonante por lá. Mas não sou eu que as busco – elas que me aparecem e, quando dou por mim, já estão nas fotos, sem ao menos pedir licença.

É uma arquitetura da simplicidade, de gestos contidos, com uma beleza que nos roubam na infância e só nos devolvem quando quase não mais podemos vê-la. É o querer menos para ser ainda mais feliz, é uma outra arquitetura e essa sou eu, a minha maneira de ver o mundo. E chega de fugir, pois já passou da hora de ser feliz.” 

Denilson Machado

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