Sob o céu do Atacama: os caminhos, restaurantes e passeios que levam até o deserto chileno

Lagos a 4 mil metros de altitude, formações rochosas esculpidas pelo vento, vida selvagem e uma livraria no meio do deserto. A jornalista Silviane Neno foi conhecer os novos programas do Explora, o hotel que transforma aventura em experiências de luxo

  • 11 julho 2017
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As infinitas paisagens que merecem ser exploradas

No ano passado, o “NY Times” publicou sua tradicional lista de “52 lugares para ir” em 2017.

Para a decepção do turismo brazuca, não havia nenhum destino brasileiro. Encabeçando a  lista aparecia o Canadá (o país todo), e, disputando a pole position, o deserto do Atacama.

Na cola da pesquisa do jornal americano, decidi embarcar rumo ao deserto mais árido do mundo.

Para voar até o Atacama, quase todos os caminhos passam por Santiago. O que está longe de ser sacrifício. Há boas surpresas por lá, sobretudo se você, como eu, gostar de comer. No restaurante Mestizo saboreei a melhor e mais original empanada do planeta. Uma empanada de Ceviche. Isso mesmo.

Além da comida excepcional, o restaurante, em frente ao parque Bicentenário, em Vitacura, é considerado o mais bonito da capital chilena. Um projeto ousado do arquiteto Smiljan Radiac. Almoçar ou jantar ali já vale a parada na cidade.

No Atacama nosso destino era o Explora hotel. Já havia estado no Explora da Patagônia antes e, portanto, conhecia a filosofia do lugar, pensado para viajantes que adoram aventura e natureza, mas não abrem mão do conforto. Depois de mais de treze meses de reforma, o hotel reabriu recentemente e, além das instalações novinhas em folha (pense em camas e lençóis macios e um chuveiro poderoso), a novidade era a ampliação do cardápio de passeios à disposição dos hóspedes. São 43 programas diferentes, todos com guias super bem preparados e incluídos na diária (o sistema é all-inclusive). O hotel fica pertinho de San Pedro de Atacama, o vilarejo no norte do Chile, a 2.450 metros de altitude e a cerca de 100 km de Calama (onde está o aeroporto mais próximo).

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Vista externa do hotel que serve como base para a trip

San Pedro parece cidade cenário de um road movie. Ruas estreitas, de terra, construções de adobe (um tipo de tijolo bastante usado por lá), muitos vira latas soltos, quatro sorveterias, lojinhas de artesanato, agências de turismo e dezenas de pequenos cafés e restaurantes, onde se come muito bem. Vale passar uma tarde inteira flanando por lá, e à noite o fervo também é garantido.

O deserto
Nada do que você já ouviu falar do Atacama é exagero. Não há outro lugar no mundo onde se depare ao mesmo tempo com lagos onde não se afunda nem com reza brava, superfícies que parecem com a da lua, desertos de sal com flamingos e um céu espetacular, de dia e de noite. Não é à toa que a Nasa mantém lá um importante centro de pesquisas. Tudo isso, além, claro, das dunas de areia a perder de vista. A impressão é que a qualquer momento você pode encontrar um aviãozinho caído com um pequeno príncipe de cabelos encaracolados, como no conto de Exupéry.

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Registro da maravilhosa paisagem chilena

No Valle de la Muerte (ou Valle de Marte), na Cordilheira do Sal, as formações de areia, sal e rochas foram esculpidas pela ação do vento e das águas, incrível imaginar que ali já foi o fundo do mar. Uma experiência única é tirar os sapatos e seguir descendo a montanha, afundando os pés na areia fininha. A temperatura do solo é gelada e a sensação de massagem nos pés é inebriante. Olhando para aquele visual, a mais de 3.000 pés de altura, não tem como não perder o fôlego. É a paisagem que mais lembra um deserto do jeito que imaginamos, só que muito mais bonito.

No dia seguinte, já mais habituada à altitude, decidi encarar um passeio de bike. Fiquei feliz quando vi que iria sozinha com o guia. Assim, se pensasse em amarelar e desistir no meio do caminho, não iria passar carão. E foi quase o que aconteceu. Aos 10 kms, esbaforida, respirando com dificuldade, anunciei que gostaria de voltar. Foi aí que Roberto, o guia mais simpático do Atacama, deu o golpe de misericórdia: “Só falta um pouquinho e chegamos na livraria.” Uma livraria, no meio do deserto? Foi a deixa para pedalar os metros a mais.

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Os passeios de bike valem cada quilômetro. Um desafio pedalar a mais de 3 mil metros acima do nível do mar. Ao lado, no Valle de la Muerte, a dica é descer descalço as montanhas sentindo a areia gelada

No final de uma estradinha de terra, a livraria “Ediciones Del Desierto” é o oásis. Aberta há seis meses pelo escritor Diego Álamos, funciona num container ao lado da casa dele. Diego recebe os clientes pessoalmente, oferece um chá e mostra a propriedade. Ele mora com a mulher e a filha numa moderna construção, feita com materiais locais, projeto do escritório chileno Animales Arquitectos. A casa também funciona como galeria de arte. Lógico que pedi para dar uma espiadinha por dentro, e o décor é um charme. Móveis de madeira, muitas peles e tecidos com colorido andino.

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As lagoas altiplânicas merecem ser contempladas com calma

Nas águas do vulcão
As Termas de Puritama é outro programa que vale cada pedra no caminho. A caminhada até lá é um desafio.  Um sobe e desce entre arbustos, desviando de cactos gigantes, entre outras espécies exóticas como as Colas de Zorro (rabo de raposa). O trekking dura cerca de 1h30 e a altitude volta a dar o ar da graça. Paro para pingar algumas gotas de Rinosoro no nariz e beber água várias vezes. Faz frio, faz calor, a cabeça dói, mas quando bate o cansaço de verdade, surgem as termas. Ula-lá.  São oito piscinas  localizadas dentro de um dos cânions da região,  com água quentinha e relaxante. Na língua Kunza, “puri” significa água e “tama”, quente.

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Em pleno deserto, as fonte termais Puritama, são um convite ao relaxamento

Uma das piscinas é exclusiva para os hóspedes do Explora e confesso que, àquelas alturas, adorei ter aquela jacuzzi gigante só pra gente. Ficamos mais de uma hora ali, um pequeno grupo de cinco pessoas, mergulhando e boiando naquela água que soltava fumacinha, oriunda de um vulcão. Mal imaginávamos que no Brasil, naquela mesma tarde, outro vulcão começava a entrar em erupção.

À noite, no restaurante do hotel, aquecidos pela lareira, wi-fi ligado, começaram a pipocar mensagens pelo celular. Em cada aparelho brasileiro tocava a musiquinha do Plantão do Jornal Nacional. Aquela mesma que quase sempre anuncia catástrofes. A delação de Joesley Batista caiu como uma bomba no meio do meu steak com polenta.

Como não há nada o que possa fazer pela economia  quando se está no deserto, no dia seguinte evitei o noticiário e escolhi um dos passeios mais longos e mais bonitos: as lagoas altiplânicas. No percurso de mais de uma hora e meia, cruzamos com lhamas na estrada, ciclistas malucos, pequenos vilarejos, observatórios, e no horizonte, montanhas e vulcões. O destino é uma lagoa tão azul quanto o céu mais limpo do mundo. Ao redor dela, pequenas concentrações de vegetação e neve. Pausa para fotos cartão postal.

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Outro registro do deserto do Atacama

Na difícil tarefa de escolher um local para almoçar, paramos em Soçaire, minúscula cidade de 150 habitantes, que vivem da mineração e agricultura. De tão simples, o povo não se permite ser fotografado porque, segundo eles, tirar foto “rouba a alma”.

No restaurante, uma senhora sorridente nos dá boas vindas e permite que usemos o local para nosso banquete, mediante pagamento de uma pequena quantia. Nosso almoço veio na van. De uma enorme caixa térmica brotaram salmão defumado, grãos, verduras, frutas secas, pães, queijo e vinho. A experiência de arrumar a mesa naquele lugar tão bucólico, quase poético, produziu uma curiosa sensação de paz e acolhimento.

Foi uma despedida em grande estilo. À mesa, o motorista, o guia (que falava português), e nós falamos de política,  música brasileira, ioga, receitas e astronomia.

No avião, já a caminho do Brasil, lembrei daquela frase que diz: “As melhores viagens são aquelas que respondem perguntas que você não fez antes de partir”. Uma delas foi, sem dúvida, por que desperdiçamos tanto tempo acreditando que somos mais do que um pontinho no universo? E a outra seria, “por que demorei tanto tempo para ter certeza disso, e conhecer o Atacama?”.

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A diversidade de suas paisagens é a principal atração do Atacama

Para mais achados e histórias, sigam a @decordesaltoalto da jornalista Silviane Neno, no Instagram.

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